1.
Passou-se isto numa tarde pardacenta de Outono: estava eu envolto de reflexões, quando uma doce fragrância a begónia me veio às narinas. Entre aromas juntou-se um mordaz embater, no chão de madeira velha, que pisava ao mesmo tempo que pulsava o meu coração.
Já se diluíram em murmúrios, essas tardes de Outono e de todas as outras estações do ano. Sempre culpei a begónia, alquimista das minhas maleitas. Os aromas que antigamente se me entretinham, hoje provocavam-me somente cólera. Não sei como lhes explicar esta transmutação espírita, que me prenda pela aversão a boas educações e a tolerâncias dialécticas. Não sei também que entendimentos me evocaram o sentido do olhar para uma nova percepção, a do analisar o olhar. Não conheço as razões por que só agora me assomaram o corpo. Oh senhores, mas que realmente sei eu acerca das minhas iniciações do despertar e do pensar? Vivo numa caverna, deixada de herança, vivo nela sem quaisquer compromissos, vivo como um insecto. Abandonar este covil torna-se mais insuportável de dia para dia, de mim só me vêm a sombra. Remotos são os tempos em que saia da periferia para visitar a cidade de Lisboa, ficava doente se lá tivesse que viver, é muita beleza para uma alma revolta e fragilizada como a que me possuí. Se esta existência não fosse se não fragmentos de tempos remotos, não me conheceria. Ainda existe vida, nesta minha pocilga.
É incrível como os periquitos preenchem a vida dos homens solitários.
Que características tão sublimes se lhes carregam as penas, para que comigo, estejam, sempre, tão dispostos a uma eterna benevolência? Certamente se sentem mais sós do que eu, e se assim não fosse já a vida lhes tinha sido ceifada. Também me fazem companhia, as flores, prezam a minha sanidade, acalmam a misantropia que se me plantou no corpo, num dia destes. Raças de escravos, medíocres escravos que vós sois, que não apreciam a autêntica arte do belo! Quando se me roça uma pétala, ao de leve, oh cheiro-a, que me elucida os sentidos, olho-a, que se me magnifica a alma, todas elas coloridas, de doces cheiros e vislumbres, me renovam as razões e os pesares. Que não é menos bela por estar colhida e eu sou menos triste do que fora até então.
Mas vós, lamentáveis, que não glorificam a sublime essência do simples contemplar. A perceptibilidade pela natureza adestrou-me da mesma pelos homens, como as flores, posso não as ver mas cheiro-as e sinto-as ao de longe, e quantas vezes a meu ver se secam e se despem (de valores) inutilmente!
Zombam os tambores da noite e, por entre paredes de cimento, por entre fendas, cortes e lascas, encontram-me. É na noite que sinto melhor e vejo o que de dia me está escondido, é na noite que ouço as vozes encantadas que povoam o meu estar e quase que lhes toco só de as ouvir. De dia só me acompanha o desejo pela noite. Não me ocupa nada no espírito, se nome de espírito lhe atribuir, não me ocupa nada a não ser o vazio de ser sozinho, agora e até o dia acabar, até já não querer ser.
Cada dia é assim, todos os dias com a existência oca, só o estar vive, nada mais a não ser o natural existir.