Existem duas razões a que me proponho prontamente perante a guerra. A primeira: o indubitável crescimento proveniente da dor. A dor do entendimento profundo do espírito humano. Contemplar a guerra é contemplar o que existe no âmago de cada um de nós, humanos. A guerra não reflecte mais do que as nossas guerras interiores. Não passa de um reflexo nosso, um reflexo enorme e grotesco, e é tão natural por isso. Assim como o sangue derramado é vermelho, a guerra é natural. Antes de jornalista quero entregar-me ao crescimento pessoal, e se o recebo pela dor de observar a guerra, assim me dou.
A segunda: Já como jornalista, despertar o entendimento consciencializador de que a guerra é tão real quanto o somos nós. Abordo agora a guerra internacional, entre países, e que envolve ideais e armas de destruição maciça que comprometem até o habitante mais remoto do mundo. O documentar da informação, oferecida pela vivência do conflito, é a ferramenta que consciencializa até o animal. A informação jornalística pretende esclarecer a guerra como uma realidade que afecta, quer a vejamos quer não, a vida do homem mais pacífico. O conflito está presente no nosso acordar, levantar, nas nossas refeições em família. Elucidemos os cidadãos! Não nos cabe pedir doações , apenas contar a história. O cidadão entendido e consciencializado anula todas as falhas conflituosas.
A morte do ergástulo e o avant-garde libertino
sábado, 22 de outubro de 2011
Sobre a Guerra
sábado, 9 de julho de 2011
Epifania do Belo
1.
Passou-se isto numa tarde pardacenta de Outono: estava eu envolto de reflexões, quando uma doce fragrância a begónia me veio às narinas. Entre aromas juntou-se um mordaz embater, no chão de madeira velha, que pisava ao mesmo tempo que pulsava o meu coração.
Já se diluíram em murmúrios, essas tardes de Outono e de todas as outras estações do ano. Sempre culpei a begónia, alquimista das minhas maleitas. Os aromas que antigamente se me entretinham, hoje provocavam-me somente cólera. Não sei como lhes explicar esta transmutação espírita, que me prenda pela aversão a boas educações e a tolerâncias dialécticas. Não sei também que entendimentos me evocaram o sentido do olhar para uma nova percepção, a do analisar o olhar. Não conheço as razões por que só agora me assomaram o corpo. Oh senhores, mas que realmente sei eu acerca das minhas iniciações do despertar e do pensar? Vivo numa caverna, deixada de herança, vivo nela sem quaisquer compromissos, vivo como um insecto. Abandonar este covil torna-se mais insuportável de dia para dia, de mim só me vêm a sombra. Remotos são os tempos em que saia da periferia para visitar a cidade de Lisboa, ficava doente se lá tivesse que viver, é muita beleza para uma alma revolta e fragilizada como a que me possuí. Se esta existência não fosse se não fragmentos de tempos remotos, não me conheceria. Ainda existe vida, nesta minha pocilga.
É incrível como os periquitos preenchem a vida dos homens solitários.
Que características tão sublimes se lhes carregam as penas, para que comigo, estejam, sempre, tão dispostos a uma eterna benevolência? Certamente se sentem mais sós do que eu, e se assim não fosse já a vida lhes tinha sido ceifada. Também me fazem companhia, as flores, prezam a minha sanidade, acalmam a misantropia que se me plantou no corpo, num dia destes. Raças de escravos, medíocres escravos que vós sois, que não apreciam a autêntica arte do belo! Quando se me roça uma pétala, ao de leve, oh cheiro-a, que me elucida os sentidos, olho-a, que se me magnifica a alma, todas elas coloridas, de doces cheiros e vislumbres, me renovam as razões e os pesares. Que não é menos bela por estar colhida e eu sou menos triste do que fora até então.
Mas vós, lamentáveis, que não glorificam a sublime essência do simples contemplar. A perceptibilidade pela natureza adestrou-me da mesma pelos homens, como as flores, posso não as ver mas cheiro-as e sinto-as ao de longe, e quantas vezes a meu ver se secam e se despem (de valores) inutilmente!
Zombam os tambores da noite e, por entre paredes de cimento, por entre fendas, cortes e lascas, encontram-me. É na noite que sinto melhor e vejo o que de dia me está escondido, é na noite que ouço as vozes encantadas que povoam o meu estar e quase que lhes toco só de as ouvir. De dia só me acompanha o desejo pela noite. Não me ocupa nada no espírito, se nome de espírito lhe atribuir, não me ocupa nada a não ser o vazio de ser sozinho, agora e até o dia acabar, até já não querer ser.
Cada dia é assim, todos os dias com a existência oca, só o estar vive, nada mais a não ser o natural existir.
domingo, 1 de maio de 2011
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Duas flores
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
Instintos
Enquanto agarrava, gentil, a taça e a alçava até aos lábios, antevia o sabor do álcool no meu sangue e vinha a meu paladar uma saliva excitada. Até que a espera não mais se prolongou e o sensabor que pairava na boca se desvaneceu e deu lugar a uma mescla de excelsos gostos. E para que a efemeridade não vivesse no meu copo enchia-o, de cor, de graça, de libertinagem. O vermelho pecador escorria dos meus lábios, a jovialidade tomou o meu corpo e metamorfoseou o meu espírito num constante festim. E já caída a noite e levantado o dia, notava-me escassamente embriagado, na dança e no riso, na companhia de Dionísio, com mil copos vazios. Só restos disformes vestiam a minha boca ,magoada, vazia de alegria. O sono libertou-se-me, revelei-me lúcido e amargo e emborquei-me, outra vez, no estado de alma que me tinha sucedido.
Na corrida contra o Tempo

Os dias repetem-se, as mesmas horas e os minutos e os segundos. Só nós, diferentes, todos os dias, nos mesmos dias de sempre. É assim que deve ser, porque assim o é. E enquanto somos alguém por um dia ou mesmo só por um breve segundo, que se prolonga além-mundo, vivemos como se o tempo fosse nosso, vivemos como se o tempo roubasse o próprio tempo, o nosso escasso delico-doce estar. Dói-nos a intolerância do tempo , mas se o meu tempo fosse todo o tempo do mundo não reconheceria o belo da minha singela e breve existência. Não duro isso tudo, mas amo os meus dias , iguais a todo o tempo do mundo, e os dias também me amam, embora não o pareça.
quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Nem deambula, que lhe custa mover o corpo, quieto enfraquece, mais do que quem se desloca sem caminho, enfraquece cada pedaço de carne gasta que lhe possuí, quieto destrói as vontades, as maldades as bondades, quieto não lhe resta nada, por isso brota, como uma flor, tão bela, a ceifa da vida, já há tanto tempo que a esperava, ali, quieto, e lhe possuí as vontades e as maldades e as bondades e a vida, por fim, quieto, vazio do espírito, o corpo acalma, morre e desvanece, desvanece.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Que não quero a lucidez...
O homem tocava, num tom grave, trechos de melodias, que encontrou numa das calçadas das ruas de Lisboa. Encontrou-as, famintas de toque, em papéis rasgados pelo tempo, severo, diabólico. Falou-lhe, ao tempo, num tom seco, de desdém, jurou-lhe vingança. Ia escrutinar o tempo, esquartejá-lo, esconder as suas entranhas nos quatro cantos do mundo.
Nunca aceitara que o tempo era infinito, nunca aceitara que esse tempo lhe roubasse nem as gentes que amara nem a formosura que conhecera, durante tantos anos, todos os dias, ao espelho.
Tocou, em largas gesticulações, as notas desses papéis. Mas deslindou-as, primeiro, com uma meiguice de criança, tocou-lhes, como se de vidro se tratasse, fê-lo escrupulosamente, movido por demónios, impiedoso. Num tom grave, começou, descobriu as mais belas melodias e tocou-as. Abriu as mãos, que se não se camuflassem de pele, já os ossos dos dedos se tinham descoberto. Chegava longe no piano, tocava, com os mindinhos, teclas que estavam lá ao fundo, onde ninguém, nunca, deve ter chegado com os mindinhos e com os braços, assim, sem sair do sítio. Começou, com uma melodia manhosa, a anunciar algo estranhamente perverso. Ai, se o tempo não se acanhasse agora, quando o fará! Extraordinariamente cruel, o piano, seu companheiro, a seu lado, compactuava na mesquinhez do homem, ao soltar cordas percutidas, tão inteiramente perfeitas.
E as unhas, tão amigas, que sentiam o peso dos dedos, a embater nas teclas, com rigor. E o tempo sentia, arrepiado, um siroco vindo do além, a música do pregador da vingança. Enraivou-se, que ele gosta de escavacar tudo o que é belo, mas a música, ai a música… Essa não se cansa, corre atrás do tempo, com o vento, com as lembranças de todos os mortais que a tocaram.
Mas o tempo, então, matreiro, muito capaz, que tem poder nas coisas mundanas, aproximou-se do homem, do piano, da música, oh, que malvadez! Partiu-lhe as unhas, para não mais tocar, partiu-se-lhas desde a carne, desde, quase, das cutículas. E jorrou-se-lhe tanto sangue, uma imensa e espessa lava escorria, pelos braços do homem, pelas suas mãos, pelos dedos, tão aterrorizados. Mas ouvia-se a canção, no infinito, nas entranhas do universo, aí, onde o tempo se escondia, ouviam-se os trechos daquele papel lastimoso, ouvia-se cada nota nas cordas do piano, nas mãos sanguíneas do homem.
E via-se, na terra, um homem e um piano, ensanguentados, molhados pelo doce sabor a sangue, que jorrava até ao chão e dançava, rindo-se, em poças espessas, que se entranhavam pela carpete, pelo chão adentro, pela escuridão, até ao universo.
Nunca ninguém provara tal vingança.

