Toco-lhe, que me refresca as mãos, tão quentes,
Cheiro-a, que me elucida os sentidos,
Toda ela rósea, de doces fragrâncias e vislumbres, me renovam as razão e o pesar.
Enquanto agarrava, gentil, a taça e a alçava até aos lábios, antevia o sabor do álcool no meu sangue e vinha a meu paladar uma saliva excitada. Até que a espera não mais se prolongou e o sensabor que pairava na boca se desvaneceu e deu lugar a uma mescla de excelsos gostos. E para que a efemeridade não vivesse no meu copo enchia-o, de cor, de graça, de libertinagem. O vermelho pecador escorria dos meus lábios, a jovialidade tomou o meu corpo e metamorfoseou o meu espírito num constante festim. E já caída a noite e levantado o dia, notava-me escassamente embriagado, na dança e no riso, na companhia de Dionísio, com mil copos vazios. Só restos disformes vestiam a minha boca ,magoada, vazia de alegria. O sono libertou-se-me, revelei-me lúcido e amargo e emborquei-me, outra vez, no estado de alma que me tinha sucedido.

Os dias repetem-se, as mesmas horas e os minutos e os segundos. Só nós, diferentes, todos os dias, nos mesmos dias de sempre. É assim que deve ser, porque assim o é. E enquanto somos alguém por um dia ou mesmo só por um breve segundo, que se prolonga além-mundo, vivemos como se o tempo fosse nosso, vivemos como se o tempo roubasse o próprio tempo, o nosso escasso delico-doce estar. Dói-nos a intolerância do tempo , mas se o meu tempo fosse todo o tempo do mundo não reconheceria o belo da minha singela e breve existência. Não duro isso tudo, mas amo os meus dias , iguais a todo o tempo do mundo, e os dias também me amam, embora não o pareça.

Nem deambula, que lhe custa mover o corpo, quieto enfraquece, mais do que quem se desloca sem caminho, enfraquece cada pedaço de carne gasta que lhe possuí, quieto destrói as vontades, as maldades as bondades, quieto não lhe resta nada, por isso brota, como uma flor, tão bela, a ceifa da vida, já há tanto tempo que a esperava, ali, quieto, e lhe possuí as vontades e as maldades e as bondades e a vida, por fim, quieto, vazio do espírito, o corpo acalma, morre e desvanece, desvanece.
O homem tocava, num tom grave, trechos de melodias, que encontrou numa das calçadas das ruas de Lisboa. Encontrou-as, famintas de toque, em papéis rasgados pelo tempo, severo, diabólico. Falou-lhe, ao tempo, num tom seco, de desdém, jurou-lhe vingança. Ia escrutinar o tempo, esquartejá-lo, esconder as suas entranhas nos quatro cantos do mundo.
Nunca aceitara que o tempo era infinito, nunca aceitara que esse tempo lhe roubasse nem as gentes que amara nem a formosura que conhecera, durante tantos anos, todos os dias, ao espelho.
Tocou, em largas gesticulações, as notas desses papéis. Mas deslindou-as, primeiro, com uma meiguice de criança, tocou-lhes, como se de vidro se tratasse, fê-lo escrupulosamente, movido por demónios, impiedoso. Num tom grave, começou, descobriu as mais belas melodias e tocou-as. Abriu as mãos, que se não se camuflassem de pele, já os ossos dos dedos se tinham descoberto. Chegava longe no piano, tocava, com os mindinhos, teclas que estavam lá ao fundo, onde ninguém, nunca, deve ter chegado com os mindinhos e com os braços, assim, sem sair do sítio. Começou, com uma melodia manhosa, a anunciar algo estranhamente perverso. Ai, se o tempo não se acanhasse agora, quando o fará! Extraordinariamente cruel, o piano, seu companheiro, a seu lado, compactuava na mesquinhez do homem, ao soltar cordas percutidas, tão inteiramente perfeitas.
E as unhas, tão amigas, que sentiam o peso dos dedos, a embater nas teclas, com rigor. E o tempo sentia, arrepiado, um siroco vindo do além, a música do pregador da vingança. Enraivou-se, que ele gosta de escavacar tudo o que é belo, mas a música, ai a música… Essa não se cansa, corre atrás do tempo, com o vento, com as lembranças de todos os mortais que a tocaram.
Mas o tempo, então, matreiro, muito capaz, que tem poder nas coisas mundanas, aproximou-se do homem, do piano, da música, oh, que malvadez! Partiu-lhe as unhas, para não mais tocar, partiu-se-lhas desde a carne, desde, quase, das cutículas. E jorrou-se-lhe tanto sangue, uma imensa e espessa lava escorria, pelos braços do homem, pelas suas mãos, pelos dedos, tão aterrorizados. Mas ouvia-se a canção, no infinito, nas entranhas do universo, aí, onde o tempo se escondia, ouviam-se os trechos daquele papel lastimoso, ouvia-se cada nota nas cordas do piano, nas mãos sanguíneas do homem.
E via-se, na terra, um homem e um piano, ensanguentados, molhados pelo doce sabor a sangue, que jorrava até ao chão e dançava, rindo-se, em poças espessas, que se entranhavam pela carpete, pelo chão adentro, pela escuridão, até ao universo.
Nunca ninguém provara tal vingança.