quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Instintos

Enquanto agarrava, gentil, a taça e a alçava até aos lábios, antevia o sabor do álcool no meu sangue e vinha a meu paladar uma saliva excitada. Até que a espera não mais se prolongou e o sensabor que pairava na boca se desvaneceu e deu lugar a uma mescla de excelsos gostos. E para que a efemeridade não vivesse no meu copo enchia-o, de cor, de graça, de libertinagem. O vermelho pecador escorria dos meus lábios, a jovialidade tomou o meu corpo e metamorfoseou o meu espírito num constante festim. E já caída a noite e levantado o dia, notava-me escassamente embriagado, na dança e no riso, na companhia de Dionísio, com mil copos vazios. Só restos disformes vestiam a minha boca ,magoada, vazia de alegria. O sono libertou-se-me, revelei-me lúcido e amargo e emborquei-me, outra vez, no estado de alma que me tinha sucedido.

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