terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O homem tocava, num tom grave, trechos de melodias, que encontrou numa das calçadas das ruas de Lisboa. Encontrou-as, famintas de toque, em papéis rasgados pelo tempo, severo, diabólico. Falou-lhe, ao tempo, num tom seco, de desdém, jurou-lhe vingança. Ia escrutinar o tempo, esquartejá-lo, esconder as suas entranhas nos quatro cantos do mundo.
Nunca aceitara que o tempo era infinito, nunca aceitara que esse tempo lhe roubasse nem as gentes que amara nem a formosura que conhecera, durante tantos anos, todos os dias, ao espelho.
Tocou, em largas gesticulações, as notas desses papéis. Mas deslindou-as, primeiro, com uma meiguice de criança, tocou-lhes, como se de vidro se tratasse, fê-lo escrupulosamente, movido por demónios, impiedoso. Num tom grave, começou, descobriu as mais belas melodias e tocou-as. Abriu as mãos, que se não se camuflassem de pele, já os ossos dos dedos se tinham descoberto. Chegava longe no piano, tocava, com os mindinhos, teclas que estavam lá ao fundo, onde ninguém, nunca, deve ter chegado com os mindinhos e com os braços, assim, sem sair do sítio. Começou, com uma melodia manhosa, a anunciar algo estranhamente perverso. Ai, se o tempo não se acanhasse agora, quando o fará! Extraordinariamente cruel, o piano, seu companheiro, a seu lado, compactuava na mesquinhez do homem, ao soltar cordas percutidas, tão inteiramente perfeitas.
E as unhas, tão amigas, que sentiam o peso dos dedos, a embater nas teclas, com rigor. E o tempo sentia, arrepiado, um siroco vindo do além, a música do pregador da vingança. Enraivou-se, que ele gosta de escavacar tudo o que é belo, mas a música, ai a música… Essa não se cansa, corre atrás do tempo, com o vento, com as lembranças de todos os mortais que a tocaram.
Mas o tempo, então, matreiro, muito capaz, que tem poder nas coisas mundanas, aproximou-se do homem, do piano, da música, oh, que malvadez! Partiu-lhe as unhas, para não mais tocar, partiu-se-lhas desde a carne, desde, quase, das cutículas. E jorrou-se-lhe tanto sangue, uma imensa e espessa lava escorria, pelos braços do homem, pelas suas mãos, pelos dedos, tão aterrorizados. Mas ouvia-se a canção, no infinito, nas entranhas do universo, aí, onde o tempo se escondia, ouviam-se os trechos daquele papel lastimoso, ouvia-se cada nota nas cordas do piano, nas mãos sanguíneas do homem.
E via-se, na terra, um homem e um piano, ensanguentados, molhados pelo doce sabor a sangue, que jorrava até ao chão e dançava, rindo-se, em poças espessas, que se entranhavam pela carpete, pelo chão adentro, pela escuridão, até ao universo.
Nunca ninguém provara tal vingança.

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